Histórias de cuidado: rede veterinária supera 27 mil atendimentos

De casos urgentes a recomeços improváveis, tutores relatam como a rede integrada de Belém tem transformado a vida de cães e gatos e ampliado o acesso a serviços antes inacessíveis para milhares de famílias

Crédito: Paula Lourinho

Lívia Pinage, 18 anos, aguarda atendimento com o gato Teodoro, de 1 ano, no colo, na recepção do Hospital Municipal veterinário após o animal ser atropelado.

Por muito tempo, cuidar da saúde de cães e gatos em Belém foi um desafio marcado pela falta de acesso a serviços públicos estruturados, longas esperas e, muitas vezes, impossibilidade de arcar com atendimentos na rede privada. Em meio a essa realidade, histórias de abandono, sofrimento e também de resistência se tornaram comuns entre tutores que nunca deixaram de buscar alternativas para garantir o bem-estar de seus animais. Hoje, esse cenário começa a mudar com a consolidação de uma Rede Municipal Integrada que amplia o acesso e traz novas perspectivas para quem precisa de atendimento veterinário gratuito na capital.

A rotina no Hospital Municipal Veterinário (HVET) de Belém é atravessada por histórias que misturam apreensão, esperança e alívio. Aos 65 anos, a aposentada Anna Margareth, moradora do bairro do Marco, encontrou no serviço público a chance de cuidar da cadela Flica, de 17 anos, após o agravamento de sequelas de uma antiga cirurgia de castração feita em rede particular.

Crédito: Paula Lourinho

Clínica Veterinária Municipal de Triagem de Belém recebe os animais com tutores e realiza os encaminhamentos para o Hospital Veterinário quando necessário

“Eu cheguei aqui com o coração apertado, achando que ia perder ela. A Flica é minha companheira de vida… e quando vi que estavam cuidando dela com tanta atenção, foi um alívio que não cabe em palavras”, conta, emocionada. “Eu não tenho o que reclamar, porque é muita gente, não dá para ser diferente, mas o pessoal atende rápido e com carinho”, completa. Assim como ela, milhares de tutores têm encontrado na rede municipal um suporte que, por anos, foi escasso na capital.

Rede de saúde animal supera 27 mil atendimentos

Desde janeiro até março deste ano, a Rede Integrada de Saúde Animal ultrapassou a marca de 27 mil atendimentos, reflexo de uma demanda reprimida e, ao mesmo tempo, da ampliação dos serviços pela Prefeitura de Belém. Atualmente, são mais de 650 atendimentos por dia, distribuídos entre hospital, clínica municipal e unidades Belém Animal Itinerantes, que percorrem bairros para triagem e primeiros cuidados.

No primeiro trimestre, foram realizadas 19.500 consultas, 1.784 cirurgias, mais de 68 mil exames laboratoriais e mais de 105 mil procedimentos clínicos e terapêuticos, evidenciando a robustez da estrutura montada para atender cães e gatos na cidade.

Crédito: Paula Lourinho

“Eu só pensava em salvar o Salém. Ver ele sendo cuidado aqui me deu uma nova chance de acreditar”, declarou Vitória sobre o tratamento do gatinho de estimação.

Foi em uma dessas situações de urgência que a estudante Vitória Azevedo, de 21 anos, moradora do Sideral, buscou ajuda para o gato Salém, resgatado das ruas com uma das patas dilaceradas.

“Quando ele apareceu, já estava sem o pé, só o osso… foi desesperador. Eu não sabia o que fazer, só pensava em salvar ele”, relembra. “Trouxe correndo para a clínica e depois eles encaminharam ele para o hospital. Aqui ele foi acolhido de verdade. Ver ele sendo cuidado, medicado, tendo uma chance… dá esperança”, diz, a jovem com a voz embargada.

O animal agora recebe preparo para cirurgia de amputação da pata, após cuidados emergenciais no hospital. Segundo ela, o atendimento é diferenciado.

“Mesmo em locais privados, ele não teria toda a assistência que ele teve aqui. Aqui olharam para ele como vida, não como custo”, ressalta Vitória.

O fluxo da rede começa, na maioria dos casos, pelas unidades móveis ou pela Clínica Veterinária Municipal de Triagem, onde os animais são cadastrados, microchipados e passam pelos primeiros atendimentos. No local, são ofertados serviços como consultas, atendimentos de urgência e emergência, exames laboratoriais, avaliações para procedimentos cirúrgicos, internação em sistema Day Care — quando o animal permanece em observação e tratamento apenas durante o dia —, além de microchipagem e vacinação.

A clínica também disponibiliza atendimentos em especialidades como infectologia e medicina felina, aplicação de injetáveis e vermifugação. A partir desse primeiro atendimento, os casos são encaminhados conforme a necessidade para o HVET, referência em situações de maior complexidade.

De acordo com o diretor do hospital, Bruno Barros, a estrutura atual representa um avanço histórico no atendimento público veterinário da capital.

“A gente lida diariamente com situações limite, animais que chegam aqui em estado crítico, e cada vida que conseguimos estabilizar e devolver para o tutor é uma vitória coletiva”, afirma Bruno. “Hoje temos uma rede estruturada, com exames que saem em até 48 horas e equipes preparadas para agir rápido. Isso faz toda a diferença entre a perda e a chance de recuperação”. Ele destaca ainda o impacto social do serviço: “Não estamos falando só de atendimento veterinário, mas de saúde pública, de vínculo afetivo e de dignidade para essas famílias”.

Enquanto isso, o antigo Hospital Veterinário Municipal Dr. Vahia, no bairro do Tapanã, passa por uma reforma geral para modernização da estrutura e ampliação dos serviços ofertados. A unidade será transformada em um hospital exclusivo para castração de animais, fortalecendo as políticas de controle populacional e ampliando a capacidade de atendimento da rede municipal.

A trajetória da cadela Meg, de 8 anos, também reforça a importância dessa integração. A tutora Iza Martins, de 30 anos, procurou a rede após complicações durante um parto.

“Ela não conseguiu parir os filhotes e eu fiquei desesperada, sem saber para onde correr. Quando cheguei na clínica, eles já entenderam a gravidade e encaminharam a Meg na hora para o hospital”, conta. “Aqui, ela foi medicada, fez exames de ultrassom e colocaram como prioridade. Disseram que precisaria operar para retirar os filhotes que já estavam mortos… foi um choque muito grande”, relata, emocionada. O atendimento rápido foi decisivo para estabilizar o quadro e garantir a cirurgia e a sobrevivência da Meg. “Se não fosse aqui, eu não sei o que teria acontecido. Eles salvaram ela”, frisa.

Além da estrutura fixa, a Prefeitura de Belém mantém ações periódicas do programa Belém Animal, que ampliam o acesso a serviços gratuitos. Em março deste ano, uma única edição realizou cerca de 2 mil atendimentos em uma manhã, reforçando o alcance das políticas públicas voltadas ao bem-estar animal.

Crédito: Paula Lourinho

Hospital Veterinário Municipal de Belém é referência no atendimento gratuito a cães e gatos na capital e garante mais tranquilidade aos tutores nas horas de emergência

Serviços na rede integrada de saúde veterinária

Entre histórias individuais e números expressivos, a rede de atendimento se consolida em Belém como ponto de apoio para quem tem os animais como parte da própria família. A alta demanda ainda é um desafio, mas também evidencia o quanto o serviço tem sido essencial para garantir cuidado, dignidade e qualidade de vida aos animais — e tranquilidade a quem não abre mão de cuidar deles.

Na prática, o acesso à rede segue um fluxo organizado para garantir agilidade e priorizar os casos mais graves, inicialmente, a partir das ações do Belém Animal Itinerante e da Clínica Veterinária Municipal de Triagem, que cadastram os tutores e realizam a avaliação clínica inicial dos animais. É a partir dessa triagem que os casos são classificados e, quando necessário, encaminhados para o Hospital Veterinário Municipal (HVET), que funciona como unidade de referência para atendimentos de média e alta complexidade, como cirurgias e internações. A lógica é evitar a sobrecarga do hospital, direcionando para lá apenas os casos que realmente exigem uma estrutura mais especializada.

O Belém Animal Itinerante tem papel fundamental nesse processo ao levar serviços diretamente aos bairros, ampliando o acesso e reduzindo a necessidade de deslocamento dos tutores, funcionando como uma estratégia de descentralização do atendimento e de prevenção, além de contribuir para desafogar a demanda que chega às unidades fixas.

Para quem precisa acessar os serviços de maior complexidade, o Hospital Veterinário Municipal (HVET) está localizado na avenida José Bonifácio, nº 578, com funcionamento todos os dias da semana, de domingo a domingo, das 7h às 16h. O atendimento é destinado a moradores de Belém maiores de 18 anos, com renda familiar de até dois salários mínimos, mediante cadastro prévio. No momento do cadastro, é necessário apresentar RG, CPF, comprovante de renda ou documento que ateste baixa renda, além de comprovante de residência nominal ou declaração assinada pelo usuário. Informações e agendamentos podem ser feitos pelo telefone (91) 99286-7737.

Já a Clínica Veterinária Municipal, localizada na avenida Marquês de Herval, nº 276, funciona como principal ponto fixo de triagem e atendimentos iniciais, em horário comercial, de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h. Para ser atendido, é preciso residir em Belém (incluindo ilhas), ter mais de 18 anos, possuir renda familiar de até dois salários mínimos e realizar cadastro prévio, com a apresentação dos mesmos documentos exigidos pelo hospital.

Última edição por: Lilian Leitão

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