Entre folhas, frutas e instintos: a alimentação dos animais do Bosque

Mais de 150 quilos de alimentos são preparados diariamente para cerca de 200 animais; além da dieta, equipe cria estratégias para estimular comportamentos naturais e evitar que bichos sejam alimentados pelos visitantes

Crédito: Paula Lourinho

A distribuição da comida começa cedo: todos os dias às 7h

Folhas, frutas, ração, fígado, ovos e vísceras bovinas. A lista de alimentos servidos diariamente aos cerca de 200 animais em cativeiro do Bosque Rodrigues Alves revela uma rotina que começa cedo e precisa dar conta de um público diverso: aves, cágados, macacos-prego, cobras, peixes, quatis, capivaras, jacarés e jaguatiricas.

Às 7h, os cinco tratadores que atuam no local começam a preparar a alimentação. Meia hora depois, os primeiros animais recebem as refeições. São mais de 150 quilos de comida preparados todos os dias, sob o planejamento de dois biólogos e três veterinárias.

É uma diversidade de “pratos” para espécies com necessidades diferentes. O biólogo Tavison Guimarães, que trabalha no Bosque há 14 anos, explica que cada grupo de animais segue uma dieta específica, definida a partir de preferências alimentares e do que encontrariam nos habitats naturais.

“Nós tentamos sempre imitar o alimento natural deles”, explica Tavison Guimarães.

Apesar da presença de proteínas, folhas e frutas são os alimentos que mais aparecem na dieta dos animais.

Aniversário

O Bosque Rodrigues Alves completa 143 anos nesta terça-feira (25). Em meio à rotina de cuidados, alimentar os animais vai muito além de simplesmente por comida à disposição. Todos os dias, biólogos e veterinários desenvolvem o chamado “enriquecimento alimentar”, uma estratégia que dificulta o acesso à comida para estimular movimentos e comportamentos naturais.

Comer também é uma atividade

Na natureza, encontrar alimento exige esforço. No zoológico, a equipe tenta reproduzir parte dessas dificuldades.

“O ambiente de zoológico é um ambiente meio estressante. O animal fica preso, então a gente tenta minimizar esse estresse por meio de estratégias de enriquecimento alimentar: você oferece a comida para o animal de uma maneira diferente, para que ele tenha alguma atividade durante o dia através da alimentação”, reforça Tavison.

A comida, portanto, nem sempre está à vista ou ao alcance imediato. A intenção é fazer com que o animal procure, manipule e se esforce para conseguir o alimento.

“Na natureza eles nunca encontram o alimento fácil, tipo macaco, tem um ouriço de castanha, ele tem que meter a mão, tem que se esforçar ali para poder conseguir o alimento, então a gente tenta reproduzir dificuldades que eles poderiam encontrar na natureza dentro do zoológico”, detalha o biólogo.

Para os animais de vida livre que vivem no Bosque, a proximidade com um habitat natural é ainda maior. Cutias, pacas, cisnes, gaviões e preguiças sobrevivem com os frutos das árvores e as plantas disponíveis no próprio espaço.

Cardápio das “celebridades” do Bosque

Entre os animais que conquistaram a atenção dos visitantes, cada um também tem as próprias preferências.

O famoso quati Nando Reis tem o ovo como prato preferido. Também come frutas, principalmente banana, mamão e melancia. A alimentação é oefertada uma vez ao dia.

A Cobra Milton, por sua vez, adora camundongos. Mas, por ter metabolismo lento, a refeição é servida apenas a cada 15 dias.

O macaco Fugêncio gosta de couve, mas a dieta também inclui ração, frutas e legumes.

E há quem nunca diz não à comida no espaço. A mais gulosa do Bosque é a Cap30, nome dado à capivara que chegou ao recinto em agosto do ano passado, próximo à Conferência das Nações Unidas realizada em Belém.

“Ela se alimenta o dia todo, nada no lago e come frutas, hortaliças e capim”, enumera o biólogo.

Se Cap30 é conhecida pelo apetite, os macacos de cheiro são os que mais dão trabalho quando o assunto é alimentação. São os mesmos que costumam pular os muros do Bosque e circular pelas proximidades da almirante Barroso.

Do lado de fora, eles “aceitam” quase tudo. Pipoca, coxinha, pirulito. Alimentos oferecidos pela população acabam entrando na dieta desses animais, mesmo sendo uma ameaça para a saúde dos bichos.

“Macacos de cheiro, como são vida livre aqui no Bosque, eles gostam muito de interagir com as pessoas nas laterais, perto dos muros, e as pessoas, para tentar se aproximar deles, acabam oferecendo comida de vários tipos. Então a gente já pegou macaco chupando pirulito, comendo esquilho, pipoca, coxinha”, relata Tavison.

Para o biólogo, o problema vai além de uma refeição inadequada aos animais que são sensíveis.

“Isso é prejudicial para a espécie porque é uma alimentação totalmente inadequada para eles, além de, muitas vezes, condicionar o animal a se aproximar do ser humano pensando que ele vai dar comida para eles”, frisa o profissional.

O risco de transformar comida humana em hábito

Alimentar os animais pode desencadear uma série de problemas. Segundo Tavison, um deles é fazer com que o animal se acostume aos produtos industrializados e passe a procurar esse tipo de alimento.

Os macacos de cheiro já chegaram a roubar comida das pessoas. O hábito também pode provocar problemas clínicos, como diabetes e aumento do colesterol, além de outras enfermidades.

Por isso, manter os animais longe da comida oferecida pelos visitantes se tornou parte do trabalho cotidiano do Bosque.

O Bosque tenta ensinar os visitantes

Para evitar que a população alimente os animais, o Bosque Rodrigues Alves realiza campanhas na mídia, instala placas de aviso ao redor do espaço e orienta estudantes das escolas que visitam o local.

No caso dos macacos de cheiro, equipes do Bosque também distribuem panfletos à população que vive ou circula no entorno. O material explica por que não se deve oferecer comida aos animais.

Outra estratégia foi criar pontos de alimentação para os macacos de cheiro em locais que podem ser vistos pelo público. Há comedouros próximos ao portão da travessa Perebebuí e da parada de ônibus da avenida Almirante Barroso.

“A intenção é que a população veja que os macacos já estão sendo alimentados e não precisam da comida vinda da rua”, pontua o biólogo.

A mudança de comportamento também passa pelas famílias que frequentam o Bosque.

Sarah Monteiro, de 43 anos, administradora e moradora do bairro do Marco, costuma visitar o espaço com o marido, Wladimir Gales, e o filho de quatro anos, Miguel Levi. Ela conta que ensina o menino a não oferecer alimentos aos animais.

“Quando a gente vem eu não deixo o meu filho jogar nada para os animais, porque sei que é errado e faz mal para eles. Já vi gente dando até biscoito para os bichos”, conta Sarah.

No Bosque, alimentar um animal não é apenas oferecer comida. É interferir em uma rotina cuidadosamente planejada para que cada espécie receba aquilo de que precisa e, sempre que possível, tenha de buscar o alimento como ocorre na natureza.

Última edição por: Tânia Menezes

Compartilhe: 

Veja também

Pesquisar