Desde a criação, há 30 anos, a Escola Bosque Professor Eidorfe Moreira busca integrar, na prática, a educação e o meio ambiente. Com a missão e a preocupação de dar destinação correta a materiais orgânicos e recicláveis gerados na unidade, a escola criou o seu Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos (PGRS), que envolve servidores e estudantes na promoção da sustentabilidade local.
Iniciado em 2021, o plano possui diversas frentes de trabalho. Uma delas é a coleta seletiva da escola, que separa resíduos recicláveis e, atualmente, tem parceria com catador microempreendedor individual, responsável pelo recolhimento semanal do material reciclável coletado.
Crédito: Arquivo PGRS - Escola Bosque

Localizada num terreno de 12 hectares de floresta tropical, a Escola Bosque também precisava repensar a destinação dos resíduos orgânicos gerados pela escola e pela área de mata. Para isso, além da coleta feita nos ecopontos espalhados pela área, os funcionários responsáveis pela limpeza realizam o rastelamento (limpeza) das trilhas da unidade, com a coleta de galhos secos e folhas caídas.
Crédito: Arquivo PGRS - Escola Bosque

Segundo a coordenadora do Núcleo de Planejamento e Pesquisa da Escola Bosque, professora Francisca Fontenele, é esse material orgânico que vai ser, posteriormente, separado em baias específicas para estudo e compostagem.
“Esse composto orgânico gerado vai ser aproveitado tanto para abastecer os nossos projetos de plantio, como a nossa horta, o Viveiro Educador e o Jardim de Memórias, como também para enriquecer os nossos canteiros, porque a gente sabe que a floresta amazônica funciona assim: com essa renovação orgânica das folhas que caem, o solo.vai se enriquecendo”, explica Francisca.
Crédito: Arquivo PGRS - Escola Bosque

Crédito: Élida Miranda

De acordo com a professora, a média anual de resíduos gerenciados é de 15 toneladas (fora os materiais orgânicos da floresta).
“Os resíduos são separados em três grupos: orgânicos, recicláveis e não recicláveis. Os orgânicos são destinados para as baias de produção de biomassa e para o biodigestor, para a produção de biocombustível. Os demais materiais são separados entre aqueles que o catador leva e os que vão para a coleta pública”, explica.
Crédito: Arquivo PGRS - Escola Bosque

Enquanto folhas, galhos, restos de frutas e legumes vão para as baias de compostagem, o biodigestor recebe restos de comida da cozinha da escola e transforma tudo em gás metano, utilizado para garantir o preparo da merenda escolar. O processo também gera biofertilizante, que tem parte doada para a comunidade.
Crédito: Élida Miranda

Aprendizado na prática
Técnicos e alunos estagiários do projeto percorrem os espaços da escola para orientar e sensibilizar alunos e servidores sobre a destinação correta dos resíduos.
Crédito: Arquivo PGRS - Escola Bosque

Os alunos envolvidos atuam no recolhimento, separação e manejo dos resíduos.
“Na prática, os alunos participam também de forma ativa, direta, no manejo, quando estão fazendo estágio no Ensino Médio ou quando são levados por professores para fazer alguma atividade didática específica”, explica Francisca.
Vitória Moreira, de 20 anos, foi estagiária do projeto durante o 3º ano do Ensino Médio. Tímida, ela venceu a vergonha para se tornar uma replicadora do PGRS. Ela lembra que nos intervalos das aulas, ia para o refeitório orientar as crianças e seus colegas sobre a destinação correta do que era descartado por eles.
“A gente ficava repassando essa informação para os demais alunos do Fundamental e do Ensino Médio. Quem não sabia, a gente tinha um painel que era colocado na parede dizendo o que era reciclável, o que não era, o que era orgânico”, explica.
Crédito: Élida Miranda

Para além do espaço escolar
A técnica em Meio Ambiente e educadora do plano, Jurema Freire, atua no projeto desde a criação. Ela conta que o volume de biomassa gerado no PGRS é tão grande, que muitas vezes é necessário distribuir para a comunidade.
“É tanto material que a gente não consegue dar conta de usar tudo nos nossos projetos e nos nossos canteiros. A gente precisa doar. Já fizemos várias ações de doação para a comunidade, que resultaram no fim de alguns lixões que existiam em ruas da ilha”, comenta.
Crédito: Arquivo PGRS - Escola Bosque

Reconhecimento
Além da comunidade de Outeiro, o projeto já apresentou resultados em evento na Universidade do Estado do Pará (UEPA) e foi premiado em competição nacional. Em 2025, a escola representou o Pará na gincana nacional Pequenos Guardiões, do Instituto Nacional de Desenvolvimento Social e Humano (INDSH) e conquistou o primeiro lugar ao recolher quase 17 mil toneladas de materiais recicláveis em apenas um mês, representando 70% das quase 24 mil toneladas arrecadadas na gincana.
Crédito: Arquivo PGRS - Escola Bosque

Legado para futuras gerações
Para a professora Francisca Fontenele, é fundamental a realização das ações porque o problema do resíduo sólido é muito atual e faz parte da realidade dos alunos também.
“Numa aula e numa abordagem sobre os prejuízos ambientais causados por resíduos, os alunos conseguem responder, demonstram conhecimento sobre o problema. Esse projeto vem para fazer a crítica, levantar a problemática dos resíduos e os impactos causados na natureza, mas também para propor soluções: a solução da separação, da reciclagem, da reutilização, do consumo mais consciente”, afirma.
Crédito: Arquivo PGRS - Escola Bosque

A ex-aluna Vitória conta que a participação no projeto despertou nela uma consciência ambiental que hoje ela leva para o trabalho, para a família e por onde ela vai. Hoje, inclusive, ela faz parte do projeto Jovens Defensores Populares do Pará e do Coletivo Irmãs da Horta, para onde leva os conhecimentos adquiridos na Escola Bosque.
“Em casa, no trabalho, curso, projeto, tô levando. Plantaram essa semente em mim e isso tá florescendo agora”, relata a jovem.
Crédito: Arquivo PGRS - Escola Bosque

Ela ressalta a importância do trabalho coletivo nesse processo de educação ambiental.
“A gente se juntando, fazendo um trabalho coletivo e levando essa educação ambiental, a gente consegue extrapolar conhecimento para as outras pessoas. Tem pessoas que gostam de receber conhecimento, mas não têm a oportunidade. E o que a gente faz é levar essa oportunidade para as pessoas receberem esse conhecimento sobre meio ambiente”, comenta Vitória.
A educadora Jurema Freire também destaca a dimensão que o projeto alcança, que vai além da escola.
“A Escola Bosque mudou a minha vida e aprendi que ela tem esse poder de mudar a vida de outras pessoas da comunidade. Então é muito importante o projeto, essa escola, tudo o que a gente faz aqui, porque acaba fazendo com que a comunidade se envolva, consiga mudar o seu cotidiano e a gente tenha um planeta melhor, né? Aquilo que eles aprendem aqui a respeito do meio ambiente faz toda a diferença na ilha, na nossa cidade e no nosso planeta”, afirma Jurema.