Miriti: Tradição ressignificada atravessa gerações

Um dos símbolos do Círio de Nazaré, os brinquedos de miriti renovam a tradição em roupas e conceito de arquitetura. E seguem encantando pessoas de todas as idades, consolidando o trabalho de artesãos do município de Abaetetuba.

Crédito: Paula Lourinho

Desde os 6 anos, Rivaildo Peixoto, o Mestre Riva, morador do município de Abaetetuba, nordeste do Pará, mergulhou no universo dos objetos de miriti. Na infância, o garotinho que acompanhava o pai, também artesão, nas procissões do Círio, começou lixando e pintando as peças.

Crédito: Paula Lourinho

Mestre Riva faz parte de uma família tradicional de artesãos de Abaetetuba.

Filho e neto de uma família que já perpetua a tradição do miriti há cinco gerações, Mestre Riva é avô de Beatriz, de 14 anos, e Rayane, de 13. As pequenas, assim como o avô Riva, começaram no ofício de artesãs de miriti ajudando na pintura.

Crédito: Álbum de família

As pequenas Beatriz e Rayane deram os primeiros passos como artesãs de miriti pintando e lixando as peças.

Os facões usados para esculpir o miriti são de alta periculosidade. Assim, somente no início da adolescência as crianças são iniciadas na confecção das peças. Mestre Riva começou aos 14 anos e hoje, aos 50, considera o artesanato uma missão de vida.

“Já fui de tudo: panificador, metalúrgico e professor de geografia. Tudo paralelo à produção do artesanato de miriti, e nenhuma dessas outras funções foi mais importante do que meu verdadeiro ofício. O miriti é a extensão da minha alma”, resume o artesão.

Da fibra bruta à obra de arte

O miriti vem de um tipo de madeira leve, extraída da palmeira Mauritia flexuosa, conhecida na região como miritizeiro. Ribeirinhos de Abaetetuba fazem desde a retirada da madeira na mata à confecção e pintura das peças, o que contribui para a economia local e fortalece o artesanato, que se tornou uma renda extra para muitas famílias.


A palmeira ganhou fama no artesanato e virou um dos símbolos do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém, quando as folhas do miritizeiro são transformadas em objetos coloridos pelos artesãos, como miniaturas de rodas gigantes, pássaros, barcos, bonecos, réplicas da berlinda e imagens de Nossa Senhora de Nazaré, num vasto repertório criativo e apaixonante.

Crédito: Paula Lourinho

Símbolos do Círio de Nazaré, os brinquedos de miriti evocam a fé e o imaginário infantil.

Os brinquedos de miriti fazem parte do cenário devocional que surge durante a quinzena nazarena, mas principalmente durante a procissão do Círio de Nazaré, onde estão presentes desde 1793, dando visibilidade à cultura regional e evocando memórias de infância.

Com facas e facões nas mãos, os artesãos transformam fibra bruta em obras de arte. Para tornar o artesanato ainda mais peculiar, a confecção é ecologicamente sustentável. Os artesãos têm o cuidado de não utilizar tinta tóxica.

Crédito: Paula Lourinho

Como os artesãos não usam tinta tóxica, o miriti se identifica como uma arte ecologicamente sustentável.

Os brinquedos de miriti são um patrimônio cultural imaterial do Estado do Pará e do Brasil, tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). No ano de 2009, o governo do Pará sancionou a Lei 7.282, que tornou o brinquedo de miriti Patrimônio Cultural de todos os paraenses.

Feira do Artesanato de Miriti 2025

Os brinquedos de miriti são uma referência do artesanato paraense e revelam talentos ocultos, que ganham evidência no mês de outubro por conta do Círio de Nazaré.

Uma das vitrines desses artesãos de Abaetetuba é a Feira do Artesanato de Miriti 2025, promovida pela Fundação Cultural Abaetetubense. Neste ano, ela será realizada de 8 a 12 de outubro, na praça Dom Pedro II, em Belém. O evento, que antecede o Círio de Nazaré, reúne exclusivamente artesãos de Abaetetuba, cidade reconhecida nacionalmente como o berço do tradicional brinquedo de miriti.

Nesta edição, o evento traz o tema “Tradição, Arte e Sustentabilidade rumo à COP 30”, conectando a produção artesanal amazônica aos debates globais sobre preservação ambiental.

A programação contará com 49 estandes de exposição e venda de produtos, além de
apresentações culturais com artistas de Abaetetuba, fortalecendo a economia criativa e
promovendo intercâmbio cultural
entre os municípios.

Museu do Círio expõe peças o ano todo

Outra exposição tradicional dos brinquedos de miriti é a do Museu do Círio, administrado pela Secretaria de Estado de Cultura (Secult), que funciona no Complexo Feliz Lusitânia, bairro da Cidade Velha, em Belém.

Com um rico acervo, em torno de 2 mil peças, o Museu do Círio retrata e produz conhecimento acerca da devoção popular em torno da celebração do Círio de Nossa Senhora de Nazaré. São 11 coleções, que vão desde arte sacra do século XIX até a arte popular em objetos de miriti.

Um dos maiores acervos do Museu do Círio traz cerca de 500 peças de miriti. A maioria dos objetos de miriti do Museu foi doada por romeiros, que pagaram promessas durante a procissão do Círio levando os objetos.

Crédito: Paula Lourinho

A maioria das peças de miriti do Museu do Círio foi doada por promesseiros que acompanham as procissões do Círio de Nazaré.

O acervo de miriti do Museu do Círio também é composto por peças de artistas contemplados em editais de incentivo à produção do artesanato. Os modelos mais interessantes são adquiridos pela Secult e passam a fazer parte da coleção.

Crédito: Paula Lourinho

Peças de artistas, contemplados por editais de incentivo à produção de miriti, também fazem parte do acervo do Museu do Círio.

A cada exposição anual do Museu do Círio, cerca de 40 objetos de miriti são expostos. A exposição deste ano terá o tema: “Museu do Círio, festa em movimento”, e terá o miriti como destaque, já que irá focar nos símbolos do Círio.

“A arte do miriti é de suma importância para a nossa região, porque ela valoriza o trabalho do nativo ribeirinho. Os objetos de miriti retratam as vivências desses ribeirinhos. É aquele pescador, aquela família que não tem acesso à capital. As peças de miriti têm essa relação de pertencimento com o povo amazônico. Não é só um artesanato, um brinquedo, é um símbolo potente de pertencimento de um povo”, destaca Márcio Figueiredo, historiador e diretor do Museu do Círio.

Crédito: Paula Lourinho

Historiador e diretor do Museu do Círio, Márcio Figueiredo define os objetos de miriti como obras de pertencimento da população ribeirinha.

O encanto que decora

O miriti também se transformou em inspiração para arquitetos. Os brinquedos saltaram do universo infantil e ganharam espaço em decorações de residências, hotéis e clubes, e são também lembranças de viagem que encantam turistas.

Crédito: Paula Lourinho

O arquiteto Caíque Lobo, 41 anos, é um entusiasta das peças. Em casa, ele guarda mais de 10 brinquedos de miriti, espalhados graciosamente pelos cantos.

Crédito: Paula Lourinho

O arquiteto Caíque Lobo expõe o miriti em casa e ainda utiliza as peças em seus projetos de trabalho.

“Como profissional, sempre tentei defender o nosso artesanato aplicado ao padrão de arquitetura. Assim que me formei e comecei a participar de mostras de decoração pelo Brasil, fui surpreendido por uma profissional de São Paulo usando certos elementos da nossa cultura e resolvi adotar o miriti. Comecei a fazer muito uso dele nos meus projetos para clientes, além de ter esses objetos em minha casa ao longo de todo o ano, não somente durante o Círio”, destaca o arquiteto.

De memória afetiva à roupa instagramável

Com sua riqueza de significados, o miriti também ganha camadas de glamour. A blogueira paraense Dina Carmona, referência de moda e estilo nas redes, com mais de 123 mil seguidores, colecionou curtidas ao usar uma roupa feita de peças de miriti.

Crédito: Arquivo pessoal

A influencer Dina Carmona colecionou curtidas na Internet ao usar uma roupa estilizada com peças de miriri

Dina criou o “Mulheres Fortes do Norte”, uma marca para firmar a identidade das mulheres nortistas. Dentro desse conceito, a blogueira já vestiu roupas feitas de caroços de açaí, de escamas de peixe e até de rede de pesca. Em 2023, usou peças de miriti para compor um look sofisticado e ousado.

“Meu encanto pelo miriti vem da infância. Meu avô fez uma boia de miriti para os netos usarem na piscina. Então, além da representatividade cultural que pude alcançar vestindo uma roupa de miriti, a questão da memória afetiva é intrínseca. O miriti é infância e também, identidade”, afirma a influencer.

E é assim, inovando e perpetuando raizes, que o miriti se consolida como um dos símbolos mais potentes e encantadores do Círio.

Última edição por: Syanne Neno

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