Diante do registro recente de casos de doença de Chagas associados ao consumo de açaí em municípios da região, a Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Municipal de Saúde de Belém (Sesma), reforça que o município mantém uma estratégia permanente de prevenção e vigilância voltada à segurança alimentar e ao controle da transmissão oral da doença.
Belém avançou de forma consistente no enfrentamento da doença de Chagas ao investir em ações integradas de vigilância territorial, fortalecimento da Atenção Primária à Saúde e qualificação da cadeia produtiva do açaí. Essas medidas vêm sendo desenvolvidas de forma contínua ao longo de 2025, com base em dados, presença nos territórios e articulação intersetorial.
Um dos principais eixos dessa estratégia é o projeto Açaí no Ponto, desenvolvido em parceria com o laboratório de Patologia Geral do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Pará (UFPA). A iniciativa realizou um censo georreferenciado dos pontos de processamento e comercialização de açaí in natura em Belém, permitindo ao município conhecer com precisão onde o alimento é produzido e comercializado.
Até janeiro de 2026, mais de 1.870 estabelecimentos foram identificados e mapeados em todos os distritos administrativos da capital — um crescimento expressivo em relação aos 111 registros existentes no início do levantamento. O trabalho contou com a atuação direta de 725 agentes comunitários de saúde (ACS), vinculados à Atenção Primária, que percorreram bairros, feiras e áreas periféricas da cidade.
Iniciado em 2025, o mapeamento passou a integrar uma política contínua de vigilância territorial, cujos resultados orientam fiscalizações sanitárias, ações educativas, capacitações de batedores de açaí e o monitoramento permanente da cadeia produtiva. A transmissão oral da doença de Chagas, associada ao consumo de alimentos contaminados, especialmente o açaí, é um desafio histórico na região amazônica, e o conhecimento detalhado do território é fundamental para reduzir os riscos à população.
Os dados levantados também evidenciaram desigualdades territoriais. distritos administrativos como o do Guamá (Dagua) e o do Bengui (Daben) concentram maior número de pontos cadastrados, enquanto áreas insulares, ribeirinhas e de menor adensamento urbano ainda apresentam lacunas no mapeamento e menor cobertura da Atenção Primária. A partir desse diagnóstico, a Prefeitura de Belém já planeja a ampliação da cobertura da APS nessas regiões, além de ações direcionadas de vigilância sanitária e monitoramento contínuo.

Mais de 650 batedores capacitados
Ao longo de 2025, a Sesma também investiu fortemente na qualificação da cadeia produtiva do açaí. Foram 655 batedores capacitados em práticas seguras de processamento, com foco no branqueamento do fruto e nas boas práticas sanitárias, em formações realizadas na Casa do Açaí, espaço municipal de referência para a qualificação do setor. O branqueamento, quando executado corretamente, elimina o Trypanosoma cruzi, agente causador da doença de Chagas, funcionando como uma barreira térmica essencial no processamento do açaí in natura.
“É importante que todos estejam cientes das boas práticas necessárias para fazer um bom açaí, para que possamos ter um alimento seguro para a população que consome diariamente. Lembrando que o açaí é mais que um alimento, ele carrega uma identidade e não podemos deixar que ele seja o vilão da história, e isso só conseguiremos com o apoio e consciência de toda a cadeia de produção do fruto”, afirma Débora Barros, coordenadora da Casa do Açaí.
Profissionais da Atenção Primária treinados
De forma complementar, o município fortaleceu a resposta assistencial ao investir na capacitação em serviço de profissionais da Atenção Primária à Saúde, em parceria com o Hospital Universitário João de Barros Barreto. Ao todo, 336 profissionais, entre agentes comunitários de saúde, médicos e enfermeiros, foram qualificados para a identificação precoce de casos suspeitos, o manejo clínico adequado, a notificação oportuna e a articulação com as vigilâncias sanitária e entomológica.
A estratégia ampliou a capilaridade da Atenção Primária, reduziu o risco de subdiagnóstico e fortaleceu a integração entre vigilância e assistência, consolidando uma resposta municipal mais eficiente, resolutiva e alinhada às necessidades da população.
Especialistas envolvidos no projeto destacam que a iniciativa fortalece não apenas o combate à doença de Chagas, mas também a segurança alimentar e a valorização do açaí, um dos principais símbolos culturais e econômicos da Amazônia. Ao integrar ciência, gestão pública e trabalho de base nos territórios, Belém se consolida como referência nacional em estratégias territoriais de prevenção de doenças negligenciadas.
A experiência reforça que o enfrentamento da doença de Chagas exige ações contínuas, baseadas em dados, proximidade com a comunidade e fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Em Belém, esse trabalho segue como prioridade da gestão municipal, com foco na prevenção, na proteção da população e na segurança dos alimentos consumidos diariamente pela população.