Agentes de leitura aceleram a alfabetização infantil em Belém

Pioneira no Brasil, iniciativa da Prefeitura de Belém colhe os primeiros resultados na evolução da escrita e na fluência leitora de alunos dos primeiros anos do ensino fundamental.

Crédito: Élida Miranda

Os agentes de leitura são pedagogos contratados para atuar especificamente com as crianças que precisam passar do nível de leitoras de palavras e frases para leitoras de textos.

O que antes eram apenas letras soltas do alfabeto, se tornaram palavras, que se tornaram frases, que se tornaram textos. Textos que eram lidos de forma silabada, pausada, agora são lidos de forma fluente e são compreendidos. Essa tem sido a realidade de muitos estudantes das escolas municipais de Belém desde a chegada dos agentes de leitura, profissionais que têm como tarefa apoiar os alunos em defasagem a se tornarem leitores fluentes.

O projeto dos agentes de leitura é uma iniciativa da Secretaria Municipal de Educação (Semec), criado em 2026, inédito em Belém e pioneiro no Brasil. Os agentes são pedagogos contratados por meio de processo seletivo simplificado para atuar especificamente com as crianças que precisam passar do nível de leitoras de palavras e frases para leitoras de textos.

Além dos agentes de leitura, a rede municipal de educação também conta com bolsistas que auxiliam os alunos a alcançarem a leitura fluente de textos.

A coordenadora de Ensino Fundamental da Semec, Cássia Lima, explica que embora existam iniciativas com o mesmo nome em outros lugares, como no Ceará, o modelo de Belém é diferente e inovador.

“São professores formados, dentro da escola, que realizam atendimento individualizado de 30 minutos, com foco direto na alfabetização na idade certa e na progressão da leitura de palavras e frases para textos. Outras cidades estão começando a adotar modelos parecidos agora, como Juazeiro (BA), que recentemente lançou um projeto com estrutura bem similar à de Belém. Ou seja, Belém está na linha de frente, é uma das primeiras do Brasil a implementar esse formato estruturado, e outras redes já estão olhando e seguindo esse exemplo”, explica a coordenadora.

Crédito: Élida Miranda

Na Escola Municipal Solerno Moreira, a bolsista Andriene Pereira atende a aluna Marielly Lobo, do 2º ano.

Leitores fluentes passaram de 19% para 41% no primeiro semestre

Dados do Sistema de Avaliação Educar pra Valer (Saev), plataforma da Semec que monitora os dados da aprendizagem dos estudantes da rede municipal, já indicam os avanços obtidos pelas escolas de Belém em relação à fluência leitora dos seus estudantes no decorrer deste ano. Em março de 2026, apenas 19% dos estudantes de Belém eram leitores fluentes. Em junho, esse número aumentou para 31%. No início de outubro, essa porcentagem já chegou a 41%.

A secretária adjunta pedagógica da Semec, Karina Portal, explica que esse avanço já reflete o trabalho dos agentes de leitura.

“O objetivo da atuação dos agentes de leitura é estratégico para apoiar os estudantes em transição (que estão em nível de ler sílabas, palavras e frases) a alcançarem o nível desejável de fluência leitora, antes do fim do 2° ano do ensino fundamental. Temos avançado bastante em relação à quantidade de estudantes que, após passarem pela intervenção, estão aprendendo a ler e escrever, conforme se espera de um estudante alfabetizado.”

Os resultados da intervenção pedagógica desses profissionais já são visíveis. Na Escola Municipal Solerno Moreira, no bairro da Terra Firme, a diretora Josiane de Mendonça explica que com a chegada da professora agente de leitura, a porcentagem de crianças alfabetizadas no 2º ano, que era de 27%, praticamente dobrou.

“Ela foi a peça-chave para essa mudança. Hoje nós temos um número expressivo de crianças alfabetizadas e a nossa meta particular é chegar em pelo menos 80% de crianças alfabetizadas até o fim do ano, e com a ajuda da agente de leitura a gente acredita que é possível.”

Crédito: Élida Miranda

A diretora da Escola Solerno Moreira, Josiane de Mendonça, afirma que a atuação da agente de leitura permitiu que o índice de alfabetização na escola praticamente dobrasse.

Na Solerno Moreira, a agente que está desde agosto desenvolvendo um trabalho intenso e ao mesmo tempo lúdico e leve de leitura com as crianças é a professora Marta Nicodemos. Professora há 39 anos, ela destaca a importância de tornar o processo de aprendizagem uma experiência prazerosa para as crianças.

“O meu foco principal é transformar o ato de ler em uma experiência prazerosa, conectada com a consolidação da alfabetização e o desenvolvimento da fluência leitora, para que os alunos comecem a ler texto com autonomia e compreensão”, afirma a docente.

Na sala onde realiza seus atendimentos e nos arquivos do seu celular estão os sinais desse investimento na ludicidade: um “paredão da leitura”, com diversas ilustrações e textos curtos selecionados por ela; um potinho com “pílulas de sabedoria”, que são doces com os quais ela presenteia os alunos; lápis de cor; certificados de “Leitores nota 10”; arquivos de alunos apresentando um telejornal, no qual leem diante da câmera um texto que simula uma notícia; dentre outros elementos.

A estudante Graziela Ribeiro, 7 anos, é uma das alunas do 2º que estavam fazendo esse acompanhamento com a professora Marta Nicodemos. Graziela começou como uma aluna em transição, ou seja, lia apenas palavras simples e frases, e hoje já lê e compreende textos.

“Antes eu conseguia ler, mas agora eu melhorei mais”, conta a estudante.

Crédito: Élida Miranda

Com a pequena Graziela Ribeiro, a professora Marta Nicodemos comemora: em meses a aluna avançou de leitora de palavras simples à leitora fluente de textos.

Ela conta que gosta de “ler histórias” e, sobre os momentos de intervenção pedagógica com a agente de leitura, afirma: “É legal, porque a professora Marta é muito legal. Ela mostra historinhas e a gente tem que ler”.

Nas três turmas de 2º ano nas quais a professora Marta atua, houve avanço em fluência leitora, conforme mostram os dados do Saev: em uma das turmas, por exemplo, o índice aumentou de 19% (em março) para 23% (em junho), e, após a chegada da agente de leitura, saltou para 44%.

Josiane ressalta a importância dessa conquista para as crianças e para as suas famílias.

“As famílias estão tão satisfeitas. Eles mandam vídeos dos filhos lendo e a felicidade deles é enorme. Às vezes os pais não leem, mas os filhos estão lendo. Imagina que satisfação para uma família ver que o ciclo está sendo rompido? E que aquela criança tem todo o potencial para ser alguém que acessa a universidade… A gente planta isso no coração das famílias quando as crianças são alfabetizadas, essa esperança de ver um filho formado, de ver um filho com melhores condições de vida”, afirma a gestora da Solerno Moreira.

Crédito: Élida Miranda

Adam Miranda, 7 anos, é um dos alunos do 2º ano acompanhados pela professora Marta Nicodemos.

Além de oferecer esperança para as famílias, o domínio da leitura e a alfabetização melhoram a autoestima das crianças e impactam diretamente na sua vida social.

“Eu entendo que a leitura serve para divertir, mas também serve para descobrir o mundo e se comunicar. A gente trabalha com gibis, poemas, receitas, notícias, contos. Através da leitura, a criança descobre o mundo. A vida social da criança perpassa pela leitura. Eu sempre converso com eles sobre isso: é ler para conhecer, para se ambientar, para ler o mundo. E para a vida social deles mesmo é muito importante a leitura”, afirma a professora Marta.

A docente reconhece o papel das famílias nesse processo, bem como o dos professores regentes (responsáveis pelas turmas).

“A parceria com os professores regentes e família é fundamental. Nós, como agentes de leitura, contribuímos, mas todos juntos somos bem mais fortes. O conhecimento chega, permanece e as crianças agradecem.”

Atualmente, a rede municipal de educação conta com 33 agentes de leitura e mais 100 bolsistas. Os agentes e os bolsistas são lotados nas escolas com maior número de alunos em fase de transição ou que ainda nem chegaram nessa fase.

Em 2027, a Semec prevê nova chamada de profissionais para alcançar todas as escolas que ainda precisam atingir a meta de alfabetização e fluência leitora de seus alunos.

Última edição por: Lilian Leitão

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