Ler é viajar sem sair do lugar. A frase, frequentemente atribuída ao escritor Mário Quintana, traduz parte da experiência da leitura: atravessar mundos, conhecer outras realidades e encontrar novas maneiras de compreender o mundo e a si mesmo.
Nesta quinta-feira, 29 de outubro, é celebrado o Dia Nacional do Livro. A data remete à fundação da Biblioteca Nacional do Brasil, em 29 de outubro de 1810, no Rio de Janeiro. Na ocasião, a Coroa portuguesa transferiu para o país o acervo da Biblioteca Portuguesa, dando origem à instituição que hoje reúne o maior acervo bibliográfico da América Latina.
Na capital paraense, uma das iniciativas voltadas à ampliação do acesso à leitura é a nova Biblioteca Pública Municipal Avertano Rocha, localizada no distrito de Icoaraci. Revitalizado pela Prefeitura de Belém, o espaço foi entregue em 28 de setembro e registrou um aumento de 30% no público frequentador após a reforma.
Com um acervo de mais de 16 mil exemplares, a biblioteca guarda obras raras, edições históricas e títulos que já não são publicados, mantendo viva uma parte importante da memória literária.
Acervo preserva memória
Crédito: Paula Lourinho

Entre as obras raras estão Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões; A Divina Comédia, de Dante Alighieri; e as Obras Reunidas, de Antônio Tavernard, em versões que não são mais publicadas. O acervo também inclui A Villa do Pinheiro, obra histórica do escritor paraense Arthur Vianna, publicada originalmente em 1906.
Desde a inauguração, em 1972, a Avertano Rocha constrói coleções por diferentes caminhos. Os livros chegam por meio de doações de pessoas físicas e bibliotecas comunitárias, de compras realizadas pela Prefeitura de Belém e de trocas, principalmente com universidades paraenses.
No mês dedicado ao livro, a biblioteca recebeu, em 27 de outubro, aproximadamente 60 novos exemplares doados pela Biblioteca Comunitária Antônio Tavernard.
Entre os títulos doados estão Estudo de Direito Processual, de José Henrique Mouta Araújo; Saga de um garimpeiro: sonhos, aventuras, ilusões, de Antônio dos Reis Ferreira Franco; Antologia Poética, que reúne autores como Luís Vaz de Camões, Álvares de Azevedo e Castro Alves; Escolas da Amazônia: memórias, de Tiese Teixeira Júnior; Morada Inteira, de José Ribamar Monteiro Filho; e Fêmea, do poeta icoaraciense Antônio Tavernard.
Para Adalberto Moura, coordenador da Biblioteca Comunitária Antônio Tavernard, a doação de Fêmea tem um significado especial. “Difunde para mais pessoas a obra desse grande escritor paraense”, afirma.
Crédito: Paula Lourinho

A coordenadora-geral da Avertano Rocha, Adriana Oliveira, destaca que a biblioteca é aberta à toda comunidade e funciona como um lugar de descoberta e aprendizado.
“A Biblioteca Avertano Rocha é um espaço de portas abertas para toda a comunidade e o Dia do Livro é uma oportunidade de lembrar que a leitura transforma vidas, amplia os nossos conhecimentos e abre caminhos para o futuro. Queremos que cada vez mais pessoas descubram o prazer de ler”, afirma Adriana.
Doação de livros mantém histórias em movimento
Crédito: Paula Lourinho

A Avertano Rocha recebe mensalmente entre 80 e 100 livros por meio de doações. Segundo Adriana Oliveira, os exemplares chegam de bibliotecas comunitárias, universidades e, principalmente, de pessoas físicas.
A doação feita por Adalberto Moura, em outubro, foi a primeira realizada por ele à biblioteca municipal. À frente da Biblioteca Comunitária Antônio Tavernard, ele busca dar continuidade a um trabalho iniciado há mais de 15 anos por Valdemir Silva, amante dos livros e fundador do espaço, que morreu em 2024.
“O Valdemir sempre doou livros para a Avertano Rocha, entre outras bibliotecas de Belém. Agora que assumi a coordenação quero continuar o seu legado”, afirma Moura.
Localizada na Rua Siqueira Mendes, 579, em Icoaraci, a Biblioteca Comunitária Antônio Tavernard reúne aproximadamente dois mil livros e se apresenta como mais um espaço de acesso gratuito à literatura em Belém.
Para Moura, contribuir com o acervo da Avertano Rocha foi uma experiência marcada pela emoção e pela receptividade da equipe.
“Fui muito bem recebido na biblioteca, a equipe é bastante solicita. Faz parte do meu trabalho difundir a literatura, principalmente, paraense. E a doação de livros para a biblioteca é uma maneira de fazer isso, os livros circulam, são lidos por mais pessoas e isso é uma experiência enriquecedora. Pretendo doar mais vezes”, garante Moura.
Curadoria e cuidado com os exemplares
Crédito: Paula Lourinho

Para doar livros à Avertano Rocha, basta comparecer à biblioteca com os exemplares que se deseja entregar. Antes de serem incorporados ao acervo, os títulos passam por uma curadoria que avalia as condições físicas das obras e sua atualidade.
São observados aspectos como danos provocados pelo tempo, riscos, páginas faltantes e o estado geral de conservação. A biblioteca aceita diferentes tipos de livros, desde que estejam em boas condições. A única categoria que não recebe são os livros didáticos, devido às constantes atualizações de conteúdo.
No momento, porém, a Avertano Rocha está temporariamente sem receber doações. Segundo Adriana Oliveira, o espaço passa por um processo de reorganização e voltará a receber os exemplares depois dessa etapa.
Da biblioteca pública às ilhas e aos bairros
Crédito: Paula Lourinho

O trabalho da Avertano Rocha não se restringe ao recebimento de doações. A instituição também contribui para a formação e o fortalecimento de bibliotecas comunitárias na região metropolitana de Belém, doando livros a iniciativas já existentes e a pessoas que estão organizando os próprios espaços de leitura.
Segundo Adriana Oliveira, a biblioteca já doou exemplares para bibliotecas comunitárias nas ilhas de Cotijuba e Combu, além de instituições localizadas em diferentes bairros da capital paraense.
A coordenadora considera esse trabalho fundamental para ampliar o acesso à cultura e à educação. Ao fortalecer iniciativas comunitárias, a Avertano Rocha ajuda a criar novas possibilidades para que os livros cheguem a outros lugares e formem um público maior de leitores.
“Doamos principalmente exemplares repetidos. Por exemplo, não precisamos ficar com quatro, cinco exemplares do mesmo livro, então entregamos para os locais que estão precisando, pois acreditamos que compartilhar livros é também compartilhar conhecimento, abrir portas para novas descobertas e transformar vidas para um futuro melhor”, explica Adriana.
Neste Dia Nacional do Livro, a biblioteca Avertano Rocha incentiva a leitura, preserva a memória cultural e fortalece iniciativas que aproximam os livros das comunidades.