Encontro discute tuberculose em população em situação de rua

Com risco aumentado em 44 vezes para o contágio de tuberculose, a população vulnerável, em situação de rua, precisa de atenção especial no combate à doença. Belém foi pioneira em criar uma rede intersetorial para o diagnóstico, tratamento e cura da tuberculose entre a população de rua, denominada de “Rede Integrada entre Assistência Social e Assistência à Saúde para o Controle da Tuberculose”, composta pela Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) e a Fundação Papa João XXII (Funpapa).

Nesta sexta-feira, 22, estes órgãos realizaram o 2º encontro de discussão da Rede para debater acerca da experiência, das fragilidades, dos acertos, dos desafios e a pactuação do próximo ano de trabalho. Participaram representantes da atenção básica da Sesma, da Referência Técnica de Tuberculose e Hanseníase, Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP) de Icoaraci e de Belém, Centro de Referência Especializada em Assistência Social (Creas), Centro de Referência em Assistência Social (Cras), Casa Abrigo para Moradores Adultos de Rua (Camar) e Consultório na Rua.

De acordo com a coordenadora da Referência Técnica de Tuberculose e Hanseníase da Sesma, Carlene Castro, o encontro é uma avaliação do funcionamento da estratégia de atuação integrada. “É um momento de ouvir os relatos das experiências para unir forças e fazer grandes avanços na política de controle da tuberculose no município”, disse.

O trabalho tem resultado na redução dos casos, principalmente por causa do Tratamento Diretamente Observado (TDO), que consiste num fluxo estabelecido de atendimento para a pessoa em situação de rua, no qual a assistência faz a identificação e sensibilização da pessoa sintomática, a coleta de material para testagem, o transporte da coleta através da rota de laboratórios. Após o resultado de exames, o usuário recebe encaminhamento e acompanhamento do tratamento.

Atualmente, a Rede identificou 151 pessoas em situação de rua, sendo 17 positivas para tuberculose. Destas, três se curaram, sete estão em tratamento, três abandonaram o tratamento, três foram transferidos para outras cidades e um faleceu por outros motivos. “Estes números podem parecer pequenos, mas, se olharmos a série histórica, vamos perceber que antes tínhamos uma taxa de abandono de 100% entre a população de rua, hoje reduzimos essa taxa pela metade”, ressaltou a enfermeira da Referência de Tuberculose e Hanseníase da Sesma, Emanuele Chaves.

Entre os pacientes que estão em terapêutica, Felinto Florêncio iniciou há dois meses o tratamento, com apoio do Centro POP, e está tendo uma ótima aceitação. “Espero da minha parte nunca quebrar esse tratamento. Tem gente que tem medo de fazê-lo, mas é pior. Eu só tenho a agradecer o apoio de todos”, disse.

Avanços e desafios

Em um ano de existência, a Rede Integrada foi ampliada e teve ganhos com a expansão do Teste Rápido para HIV em 29 unidades de saúde, implantação do Consultório na Rua e a realização do Teste Rápido Molecular nas unidades Municipais de Saúde do Guamá e da Marambaia.

“Este teste permite sabermos em duas horas se a amostra tem positividade para tuberculose e resistência à rifampicina (fármaco usado no tratamento da doença). Conforme o resultado, podemos iniciar o tratamento o quanto antes”, frisou Carlene.

Entre os entraves encontrados para o funcionamento pleno da Rede Integrada, está a falta de documentação civil das pessoas em situação de rua. “Muitos não sabem o nome da mãe nem seu próprio nome. Quando necessitam de atendimento, encontramos resistência porque estas pessoas não possuem cartão do SUS e identidade e fica difícil até para dar entrada nos programas de gerenciamento da dispensação de medicamentos e exames. Mas estamos lutando para mudar esta realidade e temos conseguido aos poucos para não deixar essas pessoas sem o tratamento”, enfatizou Carlene.

A coordenadora observou que outro entrave é o preconceito em relação à tuberculose e à própria pessoa em situação de rua. “São pessoas que, em geral, estão sujas, com roupas rasgadas, que até despertam o medo em outras pessoas e, por isso, acabam sendo discriminadas. Além dos mitos populares sobre a doença, que acabam isolando essas pessoas, fazendo com que elas não queiram persistir no tratamento e evoluam para um tipo de tuberculose mais resistente”, destacou.

Texto: Paula Barbosa

Última edição por: Agência Belém

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