Estudante Yan Dias recebe o aparelho garantido pelo SUS
Para algumas pessoas, ouvir novamente uma voz querida, acompanhar uma conversa ou simplesmente perceber os sons ao redor pode representar muito mais do que um tratamento de saúde. É recuperar autonomia, fortalecer vínculos e voltar a participar de momentos que, aos poucos, pareciam ficar distantes.
Na sexta-feira (11), Yan Dias, de 23 anos, e Heloisa da Silva, de 18, viveram um desses momentos. Os estudantes receberam o aparelho auditivo pela rede municipal de saúde de Belém – uma ocasião marcada por alegria, emoção e expectativa pelas mudanças que o dispositivo pode trazer para a rotina.
Só em 2026, o Departamento de Regulação (Dere) da Sesma contabiliza mais de 1.500 encaminhamentos para avaliação em saúde auditiva.
“Estou muito feliz e emocionado por receber o aparelho auditivo pelo SUS [Sistema Único de Saúde]. Tenho uma perda auditiva de cerca de 40%, principalmente nos sons graves, e convivo com essa dificuldade desde jovem. Meu pai também tem perda auditiva, então acredito que exista um fator genético. Sei que esse aparelho vai fazer uma grande diferença na minha vida, principalmente na faculdade. Vou poder ouvir melhor o professor, acompanhar as conversas e aprender com mais facilidade. É uma oportunidade de me comunicar melhor e viver muitas coisas que antes eram mais difíceis para mim”, afirma Yan.
A experiência de Yan representa o propósito do cuidado oferecido pela Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma), que garante à população acesso à avaliação, ao diagnóstico e à reabilitação auditiva pelo SUS.
Como ter acesso aos aparelhos auditivos
Crédito: Patricia Madrini
Aparelhos auditivos podem custar a partir de R$ 7 mil no mercado. Pelo SUS, são oferecidos gratuitamente.
O acesso começa na Atenção Primária, quando o profissional médico da unidade de saúde identifica a necessidade e solicita, por meio do Sistema Nacional de Regulação (Sisreg), consulta em otorrinolaringologia – saúde auditiva
Os reguladores do Dere fazem a triagem dos cadastros e encaminham os pacientes, conforme a disponibilidade de vagas, para os prestadores Audioclínica, Hospital Bettina Ferro de Souza e Instituto de Saúde Auditiva (ISA). Essas unidades realizam as avaliações e os exames necessários, além dos encaminhamentos para programação da entrega, orientação de uso, manutenção, reparo e reavaliação.
Há também uma segunda possibilidade de acesso. Quando o usuário já está em processo de investigação e realiza exames em um serviço especializado, a equipe pode identificar a perda auditiva e, havendo indicação clínica, solicitar à regulação o benefício do aparelho.
Nos serviços especializados, o paciente passa por avaliação clínica e exames audiológicos para identificar a existência, o tipo e o grau da perda auditiva. A partir dos resultados, a equipe define o aparelho de amplificação sonora individual mais adequado. A reabilitação inclui as etapas de seleção, programação, entrega e adaptação do aparelho, além de orientações sobre uso, cuidados e manutenção e acompanhamento especializado.
Crédito: Patricia Madrini
O fonoaudiólogo Leandro Torres destaca a importância do acesso a aparelhos auditivos de acordo com a necessidade de cada paciente
Leandro Torres, fonoaudiólogo e sócio-proprietário da Audioclínica, afirma que o serviço representa uma oportunidade de devolver ao usuário mais autonomia.
“Esse é um serviço que a gente tinha muito interesse em oferecer pelo benefício que traz para a população. Buscamos aparelhos com qualidade e tecnologia, que possam melhorar a vida do paciente e ajudá-lo a se reconectar com a família, com o trabalho, com os estudos e com o lazer.”
Ele explica que cada pessoa tem uma necessidade diferente. Por isso, existem aparelhos indicados para diferentes graus de perda auditiva, desde casos leves e moderados até perdas mais profundas, que precisam de maior potência.
“A escolha é feita de acordo com a necessidade de cada paciente. Mais do que tratar uma perda auditiva, estamos ajudando pessoas a voltarem a participar das conversas e dos momentos importantes da vida. Isso é muito gratificante”, afirma.
Para quem recebe o equipamento, a mudança ocorre em situações simples do cotidiano: acompanhar uma conversa sem precisar pedir que a pessoa repita, ouvir melhor durante uma ligação, perceber os sons ao redor ou participar de uma atividade escolar com mais segurança.
Crédito: Patricia Madrini
Heloísa da Silva, estudante, espera que o aparelho auditivo facilite sua comunicação e rotina diária
“Espero que o aparelho me ajude muito, porque é bastante difícil. Às vezes estou na rua, no trânsito, e meu ouvido começa a falhar, e eu não consigo ouvir nada. Muitas vezes, quando alguém fala comigo, também não escuto e preciso pedir para a pessoa falar do outro lado, porque deste lado não consigo ouvir. Acredito que o aparelho vai melhorar muito minha vida, principalmente minha comunicação. Espero poder ouvir melhor e não passar mais por essas dificuldades no dia a dia.”
Leandro destaca que o processo de adaptação também faz parte do cuidado.
“O aparelho não é simplesmente entregue. É preciso acompanhar, fazer os ajustes necessários e orientar o paciente para que ele consiga incorporar o dispositivo à sua rotina com segurança e conforto.”
A reabilitação auditiva pode contribuir para ampliar a autonomia, a comunicação e a convivência familiar e social. Por isso, o acompanhamento continua mesmo após a entrega do aparelho.
Cuidado que começa antes do aparelho
A saúde auditiva exige atenção em todas as fases da vida. Crianças, idosos, trabalhadores expostos a ruídos intensos e pessoas que percebem mudanças na capacidade de ouvir devem procurar avaliação profissional.
Dificuldade para compreender conversas, necessidade frequente de aumentar o volume da televisão, sensação de ouvido tampado ou impressão de que as pessoas estão falando baixo são alguns sinais que merecem atenção. A exposição prolongada a sons muito altos também pode causar danos à audição.
Nas crianças, a identificação precoce de alterações auditivas é especialmente importante para favorecer o desenvolvimento da comunicação, da aprendizagem e da interação social.
Em Belém, o SUS oferece o caminho para investigação e, quando houver indicação, reabilitação auditiva. Para iniciar o atendimento, o usuário deve procurar sua Unidade de Saúde de referência e passar por avaliação médica, que poderá realizar o encaminhamento pelo Sisreg.
Mais do que disponibilizar uma tecnologia assistiva, a rede municipal busca oferecer um cuidado que acompanhe o usuário desde a identificação da possível perda auditiva até a adaptação ao aparelho. Para Yan e Heloísa, esse cuidado ganha um significado especial: a possibilidade de ouvir melhor, se comunicar com mais segurança e voltar a participar plenamente dos momentos do dia a dia.
“Estamos fortalecendo o acesso à saúde auditiva pelo SUS, buscando garantir que o usuário percorra todas as etapas necessárias para o atendimento, desde a avaliação especializada até a adaptação e o acompanhamento do aparelho auditivo. Esse fluxo organizado permite ampliar o acesso ao cuidado e contribuir para mais autonomia, comunicação e qualidade de vida dos usuários da rede municipal”, destaca Dineuza Pereira, coordenadora ambulatorial do Dere.