Ribeirinhos fazem avaliação para controle de gordura no fígado

Ação inédita da Prefeitura de Belém levou exames especializados à Ilha Grande, em Belém, por meio da UBS Fluvial

Crédito: Danielle Dias/Ascom Sesma

Dezenas de pessoas foram atendidas e realizaram o exame pela primeira vez.

Pela primeira vez, moradores da Ilha Grande, em Belém, tiveram a oportunidade de realizar exames especializados para detectar gordura no fígado. A ação ocorreu na Unidade Básica de Saúde (UBS) Fluvial e atendeu cerca de 30 pessoas da comunidade.

Uma delas foi o extrativista João Rodrigues, de 83 anos, que nunca havia feito um exame desse tipo.

“É muito gratificante pra mim, porque eu nunca tinha feito um exame como esse. É muito importante, espero que aconteça mais vezes pra gente. Pra nós, que somos ribeirinhos, esse trabalho da UBS Fluvial é essencial, porque é a saúde que vem até a gente. Esse atendimento é importante pra quem não tem condições de ir sempre até Belém”, conta.

Ao lado do Dr. Carlos Armando, que realizou os exames, seu João, de 83 anos, destacou a importância da UBS Fluvial ao levar esta tecnologia para a comunidade.

A iniciativa da Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Municipal de Saúde de Belém (Sesma), foi em parceria com o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Hepatologia da Amazônia (NEPHA), por meio do projeto “Ver o Peso – Rastreamento Metabólico”.

Durante a ação, os especialistas levaram o equipamento Fibroscan, tecnologia capaz de avaliar a saúde do fígado ao medir o grau de rigidez do órgão. O exame é utilizado no diagnóstico e acompanhamento de doenças como Esteatose hepática, Hepatite e Cirrose.

O cirurgião bariátrico, Dr. Carlos Armando Ribeiro, que participou dos atendimentos, destacou a importância do rastreamento precoce.

“Estamos realizando um rastreio metabólico utilizando a elastografia por Fibroscan, que permite avaliar se há gordura no fígado e se esse quadro já evoluiu para inflamação ou fibrose, que é onde está o maior risco. Pacientes com fibrose têm mais chances de desenvolver complicações. Esse tipo de exame é fundamental para identificar casos ainda na fase inicial, permitindo tratamento e prevenção de internações e agravamentos”, explica.

Segundo o médico, não foi identificada predominância de obesidade na comunidade atendida. Ainda assim, alguns casos de gordura no fígado foram detectados e deverão ser acompanhados pela rede pública de saúde.

Já para dona Maria da Glória, o resultado trouxe alívio. Ela e o marido aproveitaram a oportunidade para realizar a avaliação.

“Pra mim foi motivo de alegria, porque eu nunca tinha feito esse exame. A gente precisa aproveitar as oportunidades. Quem não veio, perdeu. Meu fígado está ótimo, então fiquei aliviada, porque antes eu estava preocupada com o resultado”, relata.

Com a iniciativa, o casal, que mantém bons hábitos alimentares, teve uma boa avaliação e ficou tranquilo ao saber que o fígado está saudável.

De acordo com Ana Valino, gerente da UBS Fluvial, a chegada do serviço foi um marco para a população local.

“Essa ação na UBS Fluvial foi um marco histórico para a saúde da população ribeirinha de Belém, porque, pela primeira vez, realizamos o exame de FibroScan na unidade. Com isso, conseguimos detectar de forma precoce doenças do fígado, oferecendo um serviço essencial à nossa população. A iniciativa amplia o acesso a um diagnóstico moderno e necessário, além de fortalecer o cuidado com a comunidade atendida, que, mais uma vez, demonstrou confiança e participação ativa na ação”, pontua.

Modelo que inspira

Além do impacto direto na comunidade, a ação também chamou a atenção de especialistas internacionais. Profissionais da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, além do Ministério da Saúde, acompanharam a iniciativa.

O professor de medicina Arun Sanyal destacou o modelo de atendimento adotado na região amazônica.

“Acho isso muito inspirador. Aqui vemos um modelo de cuidado integrado, que não envolve apenas o atendimento médico tradicional, mas também a atenção à saúde do fígado dentro de um contexto mais amplo, atendendo crianças, jovens, adultos e idosos. É um modelo realmente valioso e que pode servir de referência”, afirma.

Crédito: Danielle Dias/Ascom Sesma

O pesquisador e professor de medicina da Universidade de Virgínia (EUA), Arun Sanyal, afirmou que o trabalho feito na UBS Fluvial é inspirador e espera voltar mais vezes para contribuir com a saúde da população ribeirinha de Belém.

A importância dos cuidados com o fígado

Dados recentes apontam que a Esteatose hepática está em crescimento acelerado e já atinge cerca de 30% da população adulta mundial — o equivalente a quase 1 em cada 3 pessoas.

As doenças hepáticas podem ter diversas causas, sendo as principais:

  • má alimentação
  • consumo excessivo de álcool
  • automedicação e uso inadequado de medicamentos
  • infecções virais, como Hepatite
  • obesidade e sedentarismo
  • doenças genéticas e autoimunes
  • colesterol alto e diabetes

Em muitos casos, os problemas se desenvolvem de forma silenciosa, sem apresentar sintomas nos estágios iniciais, o que reforça a importância da prevenção e do diagnóstico precoce.

Atualmente, o exame de Fibroscan está disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na Santa Casa, em Belém. A expectativa é ampliar o acesso ao serviço, levando a tecnologia de forma permanente às comunidades mais remotas por meio da rede municipal de saúde.

“Estou ansioso para trabalhar com a equipe local e desenvolver um banco de dados que permita gerar informações sobre o que está funcionando bem e o que pode ser aprimorado, para que possamos melhorar continuamente o atendimento à população”, finaliza Arun Sanyal.

Para a gerente da UBS Fluvial, foi uma grande satisfação receber especialistas de outras regiões, que puderam acompanhar de perto a dinâmica de funcionamento da unidade, reconhecendo a importância desse modelo de atenção que leva saúde com qualidade onde ela é mais necessária: nas comunidades ribeirinhas de Belém.

“Seria um grande ganho para o município e para a população se esse exame se tornasse rotina na unidade — um verdadeiro marco histórico. Além disso, ampliaria o SUS e o acesso à saúde para essa população”, destacou.

Última edição por: Syanne Neno

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